Na legislatura atual, somente três mulheres estão ocupando a bancada cearense na Câmara dos Deputados, o que representa 13,64% de sua composição. Apesar de pequeno, este é o mandato em que mais deputadas federais do Estado foram eleitas e estiveram presentes na Casa.
Além das parlamentares oficializadas no Legislativo Federal pelo sufrágio de 2022, outras cinco também chegaram a assumir como suplentes em algum momento da legislatura. Elas são parte das 11 mulheres cearenses que já passaram pela Câmara dos Deputados em 40 anos.
Além de apenas sete dessas deputadas federais terem exercido mandatos efetivos, ou seja, obterem o quociente necessário para se eleger para as atividades parlamentares pelo período de quatro anos, um segundo valor chama mais atenção: o baixo índice de reeleição.
Enquanto 28 deputados federais foram efetivados pelas urnas por mais de uma vez – alguns chegando a se eleger por quatro, cinco e seis legislaturas – desde as eleições de 1986, ano em que a primeira mulher cearense assumiu na Casa, apenas duas parlamentares conquistaram o mesmo feito.
Isso significa que somente 6,6% dessas reeleições foram femininas, conforme levantamento realizado pelo PontoPoder. Gorete Pereira (MDB), que esteve na Casa como suplente entre 2025 e 2026, e Luizianne Lins (Rede), atual deputada federal, são as únicas que já se reelegeram para o cargo, cada uma com três mandatos efetivos.
A doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Brenda Barreto, pontua que reeleições costumam favorecer quem consegue acumular capital político, fator que costuma ser mais difícil de se consolidar em candidaturas femininas.
Além de conquistar espaço, a especialista também chama atenção para o enfrentamento da violência política de gênero como um outro ponto que afeta essa representatividade e permanência:
A baixa reeleição feminina pode refletir não apenas dificuldades eleitorais, mas também um ambiente político mais hostil, que pode produzir desgaste, desestímulo e, em determinados casos, afastamento da carreira.
Espaço historicamente ‘masculinizado’
Um ano após o fim do regime ditadorial instaurado no País através de um golpe militar, oito estados brasileiros, incluindo o Ceará, elegeram suas primeiras representantes femininas para ocupar as bancadas da Câmara dos Deputados. Foi nessa eleição de 1986 que Moema São Thiago se tornou a primeira deputada federal cearense.
Apesar de representar o estado, a parlamentar é natural de Minas Gerais, mas se formou em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mesma instituição que a introduziu à militância estudantil. Com propostas, em especial, voltadas aos direitos da mulher, a advogada foi a segunda mais votada no pleito.
A eleição de Moema, entretanto, é considerada tardia por Brenda Barreto e pela cientista política Cleris Albuquerque, que classifica o âmbito político como sendo, historicamente, um “espaço masculinizado”.
Além de ocorrer 12 anos após o ingresso de Zélia Mota, primeira deputada estadual, na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), ela também se distancia do pioneirismo feminino de outras unidades federativas.
No Nordeste, a Bahia já possuía figuras femininas na bancada federal antes mesmo da Ditadura Militar, iniciando seu ingresso nas eleições de 1954. Já a nível nacional, a primeira deputada federal foi eleita em 1933 pelo estado de São Paulo, apenas um ano depois da conquista do voto feminino.
Desde 1986, a representatividade feminina não deu grandes saltos numéricos em relação às parlamentares cearenses.
18mandatos foram exercidos por mulheres cearenses na Câmara dos Deputados ao longo dos últimos 40 anos. Entretanto, somente 11 deles foram efetivos, enquanto o restante se configura como suplência.
Confira quantas deputadas exerceram mandato por legislatura:
- 48ª legislatura (1987-1991): 1 deputada;
- 49ª legislatura (1991-1995): 1 deputada;
- 50ª legislatura (1995-1999): não houve deputada;
- 51ª legislatura (1999-2003): não houve deputada;
- 52ª legislatura (2003-2007): 1 deputada;
- 53ª legislatura (2007-2011): 1 deputada;
- 54ª legislatura (2011-2015): 1 deputada;
- 55ª legislatura (2015-2019): 2 deputadas;
- 56ª legislatura (2019-2023): 3 deputadas;
- 57ª legislatura (2023-2027): 8 deputadas (incluindo suplentes que assumiram).
Quando comparados com a relação da Assembleia Legislativa, os dados da bancada cearense da Câmara dos Deputados apresentam um quantitativo bastante inferior sobre a composição das cadeiras ao longo de cada legislatura. Além disso, nenhum desses mandatos registrou mais de três mulheres efetivamente eleitas.
“As cinco suplências são interessantes, mas, de certo modo, amenizam a perspectiva de uma representação plena”, observou Cleris quanto às presenças de deputadas federais cearenses ao longo dos últimos quatro anos.
Já para Brenda, tais quantitativos também evidenciam “uma distância entre participar da disputa eleitoral, alcançar uma posição de suplência e conquistar diretamente uma cadeira”.
Além disso, ambas as especialistas observam que a diferente distribuição de vagas em cada Legislativo pode ser um indicativo para essa disparidade numérica de mulheres – enquanto o âmbito estadual oferta 46 cargos por mandato, o eixo federal é fixado em 22 cadeiras para a bancada do Ceará.
Essa questão se dá, segundo Brenda, porque “quanto menor o número de cadeiras em disputa, mais difícil pode ser a entrada de grupos que historicamente já possuem menor presença entre as candidaturas competitivas”.
Entre as oito mulheres que exerceram atividades parlamentares durante o período de 2023 a 2026, seis estão em busca de retornar à Câmara nessas eleições. No caso da suplente Mayra Pinheiro (PL), sua candidatura está para o nível estadual. Já quanto à Luizianne Lins, a disputa é pelo cargo majoritário no Senado Federal.
Competitividade, recursos e violência
A presença de candidaturas femininas é obrigatória para que os partidos possam se inserir na disputa dos pleitos proporcionais, ou seja, aqueles que elegem deputados e vereadores.
Entretanto, não basta apenas “lançar” mulheres para os cargos. Para que haja uma verdadeira chance de buscar representatividade no Legislativo, conforme Brenda Barreto, essas candidaturas precisam ser competitivas, assim chamadas quando possuem reais probabilidades de vitória.
Recursos e estrutura de campanha, tempo de inserção eleitoral, espaço e apoio de lideranças partidárias são apenas algumas das atribuições que as siglas precisam estar dispostas a oferecer às candidatas durante o período de campanha:
Registrar mulheres como candidatas não significa necessariamente oferecer a elas as mesmas condições de competição. Na disputa federal, isso se torna especialmente importante. […] Quando observamos apenas 11 mulheres cearenses chegando à Câmara desde 1986, o dado nos diz algo que começa antes da urna. Ele remete aos mecanismos de recrutamento político, à distribuição de recursos e às condições oferecidas às mulheres para construírem carreiras eleitorais competitivas.
As mesmas questões são observadas, também, para o caráter de reeleição, uma vez que “essas barreiras não desaparecem depois que uma mulher consegue ingressar na política”. A violência política de gênero, por exemplo, é apenas um dos fatores que dificultam o retorno dessas figuras à Casa.
A especialista explica que esse obstáculo nem sempre ocorre de maneira explícita, e pode começar antes mesmo da campanha eleitoral. Isolamento ou exclusão nas decisões, desqualificação ou interrupção de falas e controle indireto das atividades parlamentares costumam ser circunstâncias vividas por essas mulheres.
‘Contradição’ e perspectivas para 2026
Apesar de somente duas cearenses terem retornado à Câmara dos Deputados para o cumprimento de novos mandatos, as mulheres são maioria na população brasileira e, também, no Ceará. Esse fator, para Cleris Albuquerque, traz um teor “contraditório” para a baixa inserção na esfera política.
Com a aproximação de um novo pleito, a renovação dos cargos pode trazer mudanças nesse cenário. No eixo federal, 105 mulheres cearenses foram lançadas na disputa, contabilizando 38,46% das candidaturas.
Ao todo, 25 partidos estão registrados no portal Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para as vagas de deputado federal no estado. Entretanto, 14 deles cadastraram somente o mínimo de postulantes exigido pela legislação.
Esse comportamento é classificado como um “cumprimento de tabela” pela cientista política, uma vez que as siglas aparentam estar apenas seguindo o que é determinado pela Lei das Eleições.
Ela também chama atenção para a frequência de “dobradinhas de casais” lançadas neste pleito, indicando a possibilidade de as postulantes eleitas obterem votos por estarem previamente inseridas em famílias políticas.
Acredito que [em 2026] teremos um quantitativo de eleitas ainda modesto e distante do ideal, ao passo que essas eleitas serão nomes já conhecidos do eleitorado, potencializado pelas candidaturas casadas.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.
A informação é do site Diário do Nordeste.

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