A menos de dois meses do início oficial da campanha eleitoral, a participação das mulheres nas eleições de 2026 volta ao centro do debate político. Apesar de a legislação brasileira determinar que partidos e federações reservem ao menos 30% das candidaturas para mulheres, especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a representatividade feminina ainda esbarra em obstáculos históricos que vão muito além do cumprimento da cota.
Esta é a primeira de uma série especial de três reportagens do Opinião CE sobre a participação das mulheres na política partidária cearense e o cenário enfrentado por mais visibilidade. A segunda reportagem da série será publicada na edição desta quarta-feira (5).
Na prática, a presença numérica das mulheres nem sempre é acompanhada de protagonismo político. Em convenções partidárias, eventos públicos e na divulgação realizada pelas próprias legendas, homens continuam ocupando os principais espaços de visibilidade.
No Ceará, esse cenário chama atenção pela dificuldade de identificar mulheres entre as principais pré-candidaturas aos cargos majoritários e proporcionais. Enquanto algumas lideranças femininas já consolidadas permanecem em evidência, boa parte das candidatas registradas pelos partidos aparece com pouca exposição durante o período pré-eleitoral.
Para a pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Marina Solon, que desenvolve pesquisas sobre violência de gênero, jornalismo e feminismo, essa realidade não é circunstancial, mas resultado de uma estrutura construída historicamente. “Os estudos de gênero auxiliam a compreender a invisibilidade das mulheres em espaços públicos de poder na medida em que descortinam que as relações sociais entre homens e mulheres têm por base a desigualdade entre os dois gêneros. Nossa ordem social é patriarcal, feita de homens para homens.”
Segundo a pesquisadora, mesmo após conquistas importantes, como o direito ao voto e à participação política, mulheres continuam enfrentando barreiras estruturais que dificultam o acesso aos espaços de poder.
Uma desigualdade construída ao longo da história
De acordo com Marina Solon, a própria organização da sociedade ajudou a consolidar a ideia de que os homens seriam naturalmente mais preparados para exercer funções de liderança. “A ordem social patriarcal colocou os homens nos espaços públicos e as mulheres nos espaços privados e domésticos. Firmou-se no imaginário popular que os homens são naturalmente líderes, enquanto as mulheres seriam mais adequadas às atividades de cuidado. Mas nada há na biologia que impeça a atuação pública das mulheres. Esse arranjo é uma construção social.”

Na avaliação da pesquisadora, essa lógica permanece presente mesmo quando mulheres conseguem alcançar cargos eletivos.
Além das dificuldades para conquistar espaço, elas também enfrentam avaliações diferentes das direcionadas aos homens. “Se falamos firme somos grossas. Se somos acolhedoras, somos fracas. Se levantamos a voz para sermos ouvidas, somos descontroladas. Há sempre um olhar de julgamento para qualquer comportamento feminino. A ideia é reforçar que o espaço público não é para as mulheres.”
Presença não significa participação efetiva
Para Marina Solon, a política de cotas representa um avanço importante, mas ainda insuficiente para garantir igualdade de oportunidades. Segundo ela, o simples cumprimento do percentual mínimo de candidaturas não assegura que mulheres tenham condições reais de disputar eleições em igualdade com os homens. “A presença numérica importa porque muda um cenário historicamente ocupado pelos homens. Mas é necessário garantir espaços de fala, de escuta e de atuação para que o trabalho dessas mulheres tenha impacto.”
Ela ressalta ainda que a baixa visibilidade produz efeitos que ultrapassam uma única eleição. “Quando mulheres ocupam espaços de representação, mas não aparecem com frequência, cria-se a ideia de que, mesmo estando lá, sua presença é sufocada. Isso desestimula outras mulheres a ocuparem esses espaços.”
Democracia mais plural
Na avaliação da pesquisadora, ampliar a participação feminina também fortalece a democracia brasileira. Quanto maior for a diversidade presente nos espaços de decisão, afirma Marina, maior tende a ser a capacidade das instituições de representar os diferentes grupos da sociedade. “Quanto maior a pluralidade da sociedade estiver representada em espaços de poder, mais a democracia se fortalece. Não se constrói uma sociedade para todas as pessoas com apenas um grupo sendo ouvido.”
À medida que as articulações partidárias avançam para as eleições de 2026, especialistas defendem que o debate sobre representatividade feminina vá além do cumprimento das exigências legais e alcance condições efetivas para que mulheres disputem espaços de poder em igualdade.
A informação é do site Opinião CE.

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