Saber perder faz parte da vida pública e privada. Na política, reconhecer o resultado das urnas e respeitar quem fez escolhas diferentes são atitudes fundamentais para o debate democrático. Quando a derrota se transforma em ressentimento, porém, o risco é substituir a análise política pela busca de culpados.
Após Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencer o segundo turno das eleições presidenciais, neste domingo (25), o candidato ao Senado pelo Ceará Capitão Wagner (União Brasil) usou as redes sociais para responsabilizar eleitores petistas por problemas relacionados à segurança pública, incluindo mortes, expulsões de moradores de suas casas e extorsões atribuídas a integrantes de facções criminosas.
Em sua manifestação, Wagner afirmou que os eleitores que escolheram o PT deveriam assumir a responsabilidade por esses problemas. A declaração transfere aos cidadãos que votaram em determinada candidatura a culpa por crimes cometidos por terceiros.
“Muitas pessoas me perguntando: “Capitão, e agora?” E eu digo: “E agora o que?” O povo escolheu o PT, o povo escolheu o Elmano, o povo escolheu o Lula. E a única coisa que eu posso dizer é que, se seu filho for morto por um integrante de uma facção e você votou no PT, infelizmente a culpa é sua. Se você foi expulso da sua casa e você votou no PT, infelizmente a culpa é sua. Se você está sendo extorquido por um membro de uma facção e você votou no PT, infelizmente a culpa é sua. ‘Capitão, o que o senhor vai fazer?’ Continuar fazendo o que eu faço há 16 anos, lutando contra o sistema. Infelizmente, muitas pessoas preferiram permanecer com eles que aí estão. A gente vai pagar a conta durante esses 4 anos e quem sabe o povo não acorda em 2030″, disse, por meio das redes sociais.
Lula amplia votação no Ceará e no Brasil
A manifestação de Wagner ocorreu após Lula conquistar a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL), aliado político do ex-deputado cearense. No segundo turno, o presidente recebeu 64.256.232 votos em todo o País, ante 53.879.538 no primeiro turno, um aumento de aproximadamente 10,4 milhões de votos. No Ceará, Lula somou 4.036.124 votos, cerca de 480 mil a mais que os 3.555.263 registrados na primeira etapa da disputa.
Os números mostram a ampliação da votação do petista entre os dois turnos. Ainda assim, o resultado eleitoral não autoriza atribuir aos eleitores, individualmente, a responsabilidade por problemas sociais ou crimes praticados por integrantes de organizações criminosas.
Os 2 milhões de votos de Capitão Wagner
Capitão Wagner também saiu das urnas com uma votação expressiva na disputa pelo Senado. O candidato recebeu cerca de 2 milhões de votos, mas ficou atrás de Cid Gomes (PSB), que obteve aproximadamente 3 milhões, e de Luizianne Lins (Rede), com cerca de 2,8 milhões.
Embora não tenha conquistado a vaga, Wagner teve o apoio de uma parcela significativa do eleitorado cearense. Esses votos representam escolhas políticas que precisam ser respeitadas, assim como as decisões dos eleitores que optaram por outros candidatos.
Em outros momentos, Wagner se apresentou como uma voz de oposição aos governos petistas no Ceará. A atuação oposicionista é legítima e necessária à democracia, sobretudo quando acompanhada de fiscalização, propostas e críticas fundamentadas. O problema surge quando a divergência política passa a ser tratada como justificativa para responsabilizar cidadãos por tragédias e problemas que exigem respostas concretas do poder público.
O desafio de transformar a derrota em oposição
A derrota eleitoral impõe aos candidatos a tarefa de avaliar os resultados, compreender as escolhas do eleitorado e reorganizar suas estratégias. O ressentimento, por outro lado, pode dificultar esse processo ao transformar adversários políticos em inimigos e eleitores em alvos de acusações.
A reflexão sobre o ressentimento aparece também na filosofia de Friedrich Nietzsche, para quem esse sentimento pode aprisionar o indivíduo em experiências passadas e dificultar a afirmação de novos caminhos. O pensador alerta que o indivíduo que é incapaz de lidar com perdas ou ofensas acumula uma espécie de ‘lixo emocional’, o que pode pesar em decisões futuras.
Para Wagner, que afirma lutar contra o sistema há 16 anos, o desafio é fazer com que a oposição ultrapasse a reação ao resultado das urnas. Os cerca de 2 milhões de eleitores que confiaram em seu projeto merecem uma atuação política capaz de apresentar propostas, fiscalizar governos e enfrentar os problemas do Ceará sem transformar a escolha de outros cidadãos em motivo de culpabilização.
Na democracia, perder uma eleição não significa abandonar a oposição. Significa reconhecer a decisão popular e continuar disputando os rumos do país e do estado por meio de argumentos, propostas e responsabilidade pública.
A informação é do site Opinião CE.

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